Quando cuidar da saúde fica sempre para depois: O que uma experiência pessoal me ensinou sobre PERMA+, trabalho e responsabilidade compartilhada

Em poucas palavras

Durante muitos anos, concentrei meus esforços no desenvolvimento da mente, na reconstrução da carreira e no cuidado com as pessoas que amo, enquanto a saúde física permanecia sempre para depois. Quando decidi mudar, compreendi que consciência e determinação são essenciais, mas não suficientes: o autocuidado também depende de tempo, apoio, flexibilidade e condições concretas. Essa experiência me ajudou a enxergar o PERMA+ de maneira ainda mais profunda e a reconhecer uma responsabilidade compartilhada entre pessoas, famílias, lideranças e organizações.

Conteúdo
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    Introdução

    Há poucos dias, meu filho de 14 anos me fez uma pergunta aparentemente simples:

    “Quando você atingir sua meta de emagrecimento, vai parar de fazer exercícios?”

    Respondi imediatamente que não. Expliquei que musculação, pilates e alimentação saudável não eram uma fase nem um esforço temporário para alcançar um número na balança. Passariam a fazer parte da minha vida.

    Enquanto respondia, percebi que aquela conversa dizia muito mais sobre a transformação que comecei a viver em 2026. O resultado mais visível foi a redução de mais de 20 quilos. Mas a mudança mais importante não aconteceu na balança. Aconteceu na forma como passei a compreender saúde, presença, futuro e responsabilidade.

    Durante muitos anos, desenvolvi a mente, estudei, reconstruí minha trajetória profissional e investi na mudança e consolidação de uma nova carreira. Entretanto, uma dimensão essencial da minha vida havia permanecido fora desse projeto: o corpo.

    Foi então que compreendi algo que hoje parece evidente: meu corpo também precisaria acompanhar minha mente da melhor forma possível.

    Quando uma parte de nós fica sempre para depois

    Eu não fui sedentária durante toda a vida. Como geóloga, percorri trilhas e caminhei por quilômetros. Em outras fases, pratiquei natação, musculação e cheguei a contar com o acompanhamento de um personal trainer.

    Durante minha gravidez, considerada de risco, precisei interromper as atividades físicas por orientação médica. Depois que meu filho nasceu, a maternidade, as responsabilidades familiares e a reestruturação da minha carreira passaram a ocupar o centro da vida. O que deveria ter sido uma interrupção temporária prolongou-se por 14 anos.

    Eu continuava cuidando de muitas coisas: família, trabalho, estudos, projetos e do meu desenvolvimento pessoal e profissional. Mas o cuidado com a saúde física era continuamente adiado. Sempre parecia existir algo mais urgente.

    Em fevereiro de 2026, eu havia chegado aos 101 quilos. O peso era um indicador visível, mas não era o único. Havia cansaço, sono de má qualidade, indisposição, dores no corpo todo e a percepção crescente de que eu não poderia continuar tratando a saúde como um projeto para algum momento futuro.

    Às vezes, não deixamos de cuidar de nós porque não sabemos que isso é importante. Deixamos porque o cuidado vai sendo empurrado para o fim de uma lista que nunca termina.

    Quando presença passou a significar também saúde

    No final de 2025, meu pai, então com 87 anos e uma comorbidade cardíaca grave, enfrentou uma crise de saúde e permaneceu internado por quase um mês. Foram semanas delicadas para toda a família. Pouco antes do Natal, ele recebeu alta e pôde voltar para casa.

    Naquele período, pensei muito sobre o quanto desejava continuar tendo sua presença em minha vida. E uma pergunta inevitável surgiu: se eu desejava que meu pai permanecesse ao meu lado pelo maior tempo possível, que presença eu gostaria de conseguir oferecer ao meu filho quando o tempo também avançasse para mim?

    Não se tratava apenas de viver mais. Tratava-se de pensar como eu desejava viver. Que mulher eu gostaria de ser aos 70, 80 ou 90 anos? Em que condições eu gostaria de estar para usufruir da convivência com meu filho, com minha família e com tudo o que ainda pretendo construir?

    Minha presença futura também exigia atenção à saúde no presente.

    A decisão foi importante. Mas ela precisou se transformar em estrutura

    Em fevereiro de 2026, iniciei um processo de transformação pessoal orientado para a melhoria da saúde. Procurei acompanhamento médico e nutricional, comecei um programa de emagrecimento monitorado e, em março, retomei a atividade física com orientação profissional: musculação três vezes por semana e pilates duas vezes por semana.

    Também reorganizei a alimentação. Essa talvez tenha sido uma das mudanças mais improváveis para mim, porque nunca gostei de cozinhar. Na verdade, sempre evitei essa tarefa ao máximo e, quando precisava realizá-la, costumava vivê-la com um nível elevado de estresse.

    Mas, quando decidi assumir as rédeas da minha alimentação, percebi que depender de comida pronta quase todos os dias me mantinha distante justamente de algo que eu desejava recuperar: o controle sobre a qualidade do que eu e minha família consumíamos. A melhor maneira que encontrei não foi esperar que cozinhar se tornasse prazeroso, mas criar um sistema que funcionasse para mim e pudesse ser realizado do meu jeito.

    A cada três semanas, passei a dedicar um dia à preparação de diferentes proteínas, legumes, vegetais e grãos, que são organizados em porções e congelados. Assim, transformei uma atividade que antes me causava desgaste em um processo planejado, concentrado e com um propósito claro. Essa escolha me permitiu ter mais controle sobre a alimentação e criou uma nova dinâmica dentro de casa.

    Essa organização talvez não pareça inspiradora à primeira vista. Não possui o apelo de uma grande virada nem a emoção de uma promessa de transformação instantânea. Mas foi justamente ela que tornou a mudança sustentável.

    Não foi preciso aprender a gostar de cozinhar. Foi preciso encontrar uma maneira possível de incorporar essa tarefa à vida que eu desejava construir.

    Mudanças duradouras raramente dependem apenas de uma decisão. Elas precisam de condições que as sustentem.

    A consciência abriu o caminho. A obstinação me ajudou a começar. O acompanhamento profissional trouxe segurança. E a estrutura cotidiana me facilita continuar.

    O PERMA+ deixou de ser apenas um modelo que eu ensinava

    Na Psicologia Positiva, o modelo PERMA, proposto por Martin Seligman, ajuda a compreender o florescimento humano por meio de cinco dimensões: emoções positivas, engajamento, relacionamentos, sentido e realizações.

    Em diferentes aplicações contemporâneas, a saúde física e a vitalidade passaram a ser explicitadas como uma dimensão complementar. Em meu trabalho, utilizo a expressão PERMA+ justamente para tornar visível aquilo que muitas vezes é tratado como secundário: sem saúde e sustentação, as demais dimensões do bem-estar também podem perder força.

    Quando voltei minha atenção para o corpo, percebi mudanças que ultrapassavam a aparência. Passei a dormir melhor. Senti mais disposição e bom humor. Minhas ideias pareceram florescer com mais facilidade. A capacidade de concentração aumentou. Experimentei a satisfação de cumprir compromissos assumidos comigo mesma.

    O processo também alcançou meus relacionamentos. Ao me observar envolvida e persistente, meu filho passou a olhar para a própria saúde de outra maneira. Com autorização de seu pediatra, começou a praticar musculação e também iniciou o judô. O meu movimento não produziu apenas uma mudança individual. Ele se espalhou pelo ambiente familiar.

    Foi assim que o PERMA+ ganhou, para mim, uma dimensão ainda mais concreta:

    • As emoções positivas apareceram na vitalidade e no humor;
    • O engajamento surgiu na constância e no envolvimento com o processo;
    • Os relacionamentos estiveram presentes no vínculo com meu pai, meu filho e minha família;
    • O sentido apareceu no desejo de permanecer presente na vida das pessoas que amo;
    • A realização foi construída em cada hábito sustentado, e não apenas no resultado da balança;
    • E a saúde tornou-se a base capaz de sustentar tudo isso ao longo do tempo.

    Bem-estar não significa estar feliz o tempo todo. Também não significa conduzir todas as dimensões da vida de maneira perfeita. Significa perceber o que precisa de atenção e construir, progressivamente, condições para viver de forma mais íntegra e sustentável.

    Nem todas as pessoas encontram as mesmas condições para cuidar de si

    Reconheço minha persistência e todo o esforço envolvido nessa transformação. Mas também reconheço as condições que me ajudaram a sustentá-la.

    Sou empreendedora independente e tenho flexibilidade para reorganizar meus horários. Sou casada e divido com meu marido as responsabilidades da casa e do nosso filho. Tive condições de buscar profissionais especializados. Consegui reorganizar a rotina e reservar tempo para preparar alimentos e praticar exercícios.

    Nada disso elimina meu mérito. Mas impede que eu transforme minha experiência em uma fórmula simplista baseada apenas em disciplina e força de vontade.

    Conheço pessoas competentes, responsáveis e plenamente conscientes da importância de cuidar da saúde que enfrentam enorme dificuldade para sustentar esse cuidado. Pessoas submetidas a horários rígidos, jornadas intensas, longos deslocamentos, pressão constante e responsabilidades familiares que recaem quase inteiramente sobre elas.

    Elas sabem o que precisam fazer. Muitas vezes, já começaram. Mas, quando a vida aperta, a academia é interrompida, as consultas são adiadas, o sono diminui e a alimentação possível substitui a alimentação desejada. Não lhes falta consciência. Frequentemente, faltam tempo, energia, apoio, flexibilidade e margem de escolha.

    UMA IDEIA CENTRAL

    Nossa saúde também precisa das nossas escolhas. Mas nossas escolhas não acontecem no vazio.

    Autocuidado não pode ser usado para individualizar o adoecimento

    Falar em autoliderança e responsabilidade pessoal é importante. Cada pessoa possui algum papel na percepção de suas necessidades, na busca por apoio e nas escolhas que consegue realizar. Entretanto, existe um risco quando o discurso do autocuidado é apresentado como resposta para problemas produzidos ou intensificados pelas condições de trabalho.

    Recomendar atividade física a uma pessoa que trabalha continuamente além do horário, oferecer palestras sobre saúde mental sem rever metas inalcançáveis ou incentivar equilíbrio enquanto a liderança recompensa disponibilidade permanente cria uma mensagem contraditória.

    A pessoa recebe a orientação para cuidar de si, mas encontra um sistema que consome o tempo e a energia necessários para fazê-lo.

    Esse é um dos motivos pelos quais iniciativas isoladas de qualidade de vida nem sempre conseguem produzir mudanças duradouras. Elas podem ser positivas, mas não compensam uma organização do trabalho marcada por sobrecarga contínua, baixa autonomia, insegurança psicológica ou ausência de apoio.

    O autocuidado é pessoal. As condições que o favorecem ou dificultam também são sociais, familiares e organizacionais.

    O que as empresas precisam começar a perceber?

    Quando uma pessoa deixa repetidamente sua saúde para depois, a organização pode interpretar isso apenas como uma escolha individual. Mas pode também fazer uma pergunta mais madura: em que medida nosso modo de trabalhar está deixando espaço real para que as pessoas cuidem de si?

    Essa pergunta não autoriza a empresa a vigiar o peso, a alimentação, os exercícios ou a vida privada de seus profissionais. O papel da organização não é controlar hábitos pessoais. É compreender e gerenciar as condições de trabalho que influenciam a saúde, a recuperação e a possibilidade de conciliar diferentes dimensões da vida.

    Algumas perguntas podem ajudar lideranças e áreas de gestão de pessoas a ampliar essa percepção:

    • A sobrecarga é eventual ou se tornou o modo habitual de funcionamento?
    • As jornadas permitem descanso e recuperação adequados?
    • As pessoas conseguem realizar consultas e tratamentos sem medo de julgamento?
    • Existe alguma previsibilidade ou flexibilidade compatível com a natureza das atividades?
    • Os líderes respeitam limites ou reforçam uma cultura de disponibilidade permanente?
    • Os benefícios oferecidos podem ser realmente utilizados pelas pessoas?
    • Os profissionais que concentram responsabilidades familiares encontram escuta e alguma margem de adaptação?

    Nem todas as funções permitem o mesmo grau de flexibilidade. Organizações possuem realidades operacionais distintas e precisam garantir continuidade, segurança e atendimento às suas responsabilidades. Ainda assim, quase sempre existe espaço para examinar horários, escalas, prioridades, distribuição de demandas, previsibilidade, autonomia e qualidade da liderança.

    Flexibilidade não significa ausência de responsabilidade. Significa buscar formas mais inteligentes de compatibilizar responsabilidades profissionais e humanas.

    Responsabilidade compartilhada não é responsabilidade diluída

    Quando falamos em responsabilidade compartilhada, não estamos afirmando que todos são responsáveis por tudo. Estamos reconhecendo que diferentes atores exercem influências diferentes sobre a possibilidade de construir saúde.

    A pessoa pode ampliar a percepção sobre si, buscar apoio e fazer escolhas dentro de sua margem de autonomia. A família e as redes de apoio podem distribuir melhor as responsabilidades. As lideranças podem organizar demandas, respeitar limites e construir relações de confiança. A organização pode identificar riscos psicossociais, rever práticas e criar condições de trabalho mais sustentáveis.

    Cada parte possui responsabilidades específicas. O que não podemos fazer é colocar sobre o indivíduo todo o peso de permanecer saudável em um contexto que, muitas vezes, dificulta o cuidado.

    Organizações não promovem saúde apenas quando oferecem benefícios. Elas promovem — ou comprometem — a saúde pela forma como organizam o trabalho todos os dias.
    A mulher que desejo encontrar no futuro

    Hoje tenho metas que ultrapassam o emagrecimento. Quero voltar a fazer trilhas. Quero pedalar na natureza. Talvez, quando meus joelhos estiverem mais fortes, eu comece a correr.

    Também quero me tornar, no futuro, uma daquelas mulheres mais velhas que continuam avançadas, saudáveis, elegantes, aventureiras, desbravadoras, inovadoras e criativas. Quero que meu corpo consiga acompanhar, da melhor forma possível, tudo o que minha mente ainda deseja conhecer, criar e viver.

    Não tenho como controlar o tempo nem garantir o futuro. Mas posso participar ativamente da construção das condições com as quais desejo chegar até ele.

    Cuidar da saúde deixou de ser uma meta temporária. Passou a fazer parte de quem estou me tornando.

    Para Concluir

    Minha experiência pessoal me ensinou que perceber uma necessidade pode mudar a direção da vida. Mas também me ensinou que nenhuma mudança se sustenta apenas pela consciência.

    Eu precisei transformar intenção em estrutura: acompanhamento, planejamento, disciplina, rotina, apoio, escolhas e constância. E, ao reconhecer as condições que favoreceram meu processo, passei a olhar com ainda mais cuidado para aqueles que desejam mudar, mas vivem em contextos com pouca margem de escolha.

    O PERMA+ nos oferece uma visão integrada do florescimento. Emoções positivas, engajamento, relacionamentos, sentido, realização e saúde não existem em compartimentos separados. Uma dimensão influencia a outra, dentro e fora do trabalho.

    Por isso, cuidar da saúde não deve ser tratado apenas como uma responsabilidade privada, nem transferido integralmente para empresas e lideranças. É uma construção compartilhada, na qual autonomia pessoal e condições coletivas precisam caminhar juntas.

    Cuidar da saúde não significa garantir o futuro. Significa ampliar as condições para vivê-lo com presença.

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    Para Refletir…

    Sua organização apenas recomenda que as pessoas cuidem da saúde ou também cria condições reais para que esse cuidado seja possível?

    O que diz a ciência

    Martin Seligman apresentou o PERMA como um conjunto de cinco elementos do bem-estar: emoções positivas, engajamento, relacionamentos, sentido e realizações.

    Estudos posteriores desenvolveram instrumentos multidimensionais para avaliar esses elementos e passaram a incluir a saúde física como domínio complementar, reforçando a importância de uma visão integrada do florescimento.

    O Modelo de Demandas e Recursos do Trabalho, desenvolvido por Evangelia Demerouti, Arnold Bakker e colaboradores, demonstrou que demandas elevadas e persistentes estão associadas à exaustão, enquanto a presença de recursos — como autonomia, apoio, clareza e condições adequadas — influencia o engajamento e a capacidade de sustentar o desempenho.

    Revisões sobre formas de trabalho flexível orientadas às necessidades dos trabalhadores indicam possíveis benefícios para a saúde mental, embora os efeitos dependam do contexto e da forma de implementação. A flexibilidade, portanto, não deve ser tratada como solução universal, mas como um recurso organizacional que pode ampliar a margem de escolha quando é realmente acessível e apoiada pela liderança.

    As diretrizes da Organização Mundial da Saúde para saúde mental no trabalho também recomendam intervenções organizacionais dirigidas às condições de trabalho, incluindo avaliação e redução de riscos psicossociais, ajustes de carga, mudanças de horários e melhoria da comunicação. A mensagem é clara: promover saúde exige ações voltadas às pessoas e ao sistema em que elas trabalham.

    Referências
    • Butler, J., & Kern, M. L. (2016). The PERMA-Profiler: A brief multidimensional measure of flourishing. International Journal of Wellbeing, 6(3), 1–48. 
    • Demerouti, E., Bakker, A. B., Nachreiner, F., & Schaufeli, W. B. (2001). The Job Demands–Resources Model of Burnout. Journal of Applied Psychology, 86(3), 499–512. Seligman, M. E. P. (2011). Flourish: A Visionary New Understanding of Happiness and Well-being. Free Press.
    • Seligman, M. E. P. (2018). PERMA and the building blocks of well-being. The Journal of Positive Psychology, 13(4), 333–335.
    • Shiri, R., Turunen, J., Kausto, J., Leino-Arjas, P., Varje, P., Väänänen, A., & Ervasti, J. (2022). The Effect of Employee-Oriented Flexible Work on Mental Health: A Systematic Review. Healthcare, 10(5), 883. 
    • World Health Organization. (2022). WHO Guidelines on Mental Health at Work. Geneva: WHO.
    Sobre a Autora

    Ana Lucia Rodrigues é consultora em Desenvolvimento Humano, especialista em Psicologia Positiva Organizacional e do Trabalho, palestrante e autora do livro Um Caminho para a Felicidade no Trabalho.

    Atua no desenvolvimento de lideranças, na promoção do bem-estar organizacional e na gestão dos riscos psicossociais, transformando evidências científicas em estratégias práticas para fortalecer pessoas, equipes e resultados.

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